Loading...
Dossie_CQM Created with Sketch.

Dossiês recentes

Capítulo 10

Por dentro dos grupos fechados do assunto

Grupos online de Suicídio

Além de monitorar as redes sociais, para ver o que é dito de forma pública sobre suicídio na internet, o CQM estendeu a investigação aos grupos fechados sobre o tema, que existem em abundância principalmente no Facebook e Whatsapp.

O objetivo foi observar seu funcionamento e, mais do que analisar o tema do suicídio, entender o que passa na cabeça desses jovens, que buscam nas redes grupos como uma tentativa de aliviar a dor, compartilhar suas angústias e frustrações cotidianas com seus semelhantes.

Assim, Lucas Quinelato, um dos membros da equipe do CQM, participou de alguns desses grupos, de maneira anônima. Essa análise não possui uma base de dados quantitativos, mas sim relatos, fotos, depoimentos e vivências de pessoas com comportamento suicida desabafando, expressando-se de maneira livre em grupos fechados.

Por se tratar de redes sociais, os grupos de suicídio online são construídos e constituídos basicamente por jovens, em sua maioria adolescentes, que buscam de alguma maneira estar próximos. O que os une são os temas em comum abordados, como automutilação, depressão e pensamentos suicidas. Apesar disso, não são feitas apenas menções voltadas para esses temas. Há também conversas sobre assuntos cotidianos, como música, filmes, a vida, o universo e tudo mais.

Contudo, é fácil perceber que o tema suicídio, mesmo que de maneira indireta, sempre está presente nas pautas. Músicas tristes, filmes sobre morte, séries sobre suicídio, frases motivacionais ou desmotivacionais são amplamente compartilhados pela comunidade.

Veja, abaixo, exemplo de posts compartilhados nos grupos fechados que tratam do tema.

Início da investigação

 

Não há grandes dificuldades para entrar em contato com grupos de suicídio na internet. Basta pesquisar no Google que você provavelmente encontrará páginas, blogs, sites e comunidades ativas sobre o assunto. No nosso caso, foi importante conseguir entrar, na base da insistência, em grupos fechados e restritos.

No início, as primeiras fotos de frasco de remédios, facas, giletes e imagens de automutilação chocaram, mas o que choca de verdade é a reação da comunidade mediantes esses fatos. Para esses grupos, o suicídio e a depressão são banais, naturais, vividos, sentidos e pensados por todos. Não é uma coisa de outro mundo ver o braço do amigo cheio de cortes e cicatrizes, e as reações são as mais diversas possíveis, como mensagem de consolação, apoio, frustração e identificação.

Fica o questionamento da utilidade e existência desses grupos. Seriam válvulas de escape das dores sentidas por esses jovens? Seriam uma maneira de encontrar os comuns e compartilhar suas dores? Seriam locais de atenção e recolhimento? Um local confortável para expressar suas opiniões e angústias sem julgamentos? Bom, aparentemente cada um possui uma motivação específica, cada um sabe de sua dor, mas o que une o grupo são a depressão e o pensamento de morte.

Os grupos

Dos grupos que entramos no Facebook, aquele com o maior número de pessoas possui mais de 4 mil membros. É interessante destacar que a interação pelo Facebook não é tão constante como no Whatsapp, onde os grupos, que são fechados, contam com de 100 a 200 participantes, talvez pela maior privacidade que há no segundo.

Assim, a partir desse grupo de suicídio no Facebook, tivemos acesso a grupos restritos de Whatsapp. Neles encontramos as histórias mais perturbadoras.

Overdose de remédios

Apesar de estar habituado com o tema, ver a reação de pessoas com pensamentos suicidas desabafando dentro dos grupos é um tanto quanto chocante à primeira vista. Um dos primeiros casos graves presenciados foi de uma garoto que, em certo momento, pegou um frasco de remédios e disse que tomaria um por minuto, enquanto conversava com a galera do grupo. Uns lhe desejaram boa sorte, outros tentaram desmotivá-lo e outros simplesmente tentavam entender e ajudar da melhor maneira possível. Depois de certo tempo, o rapaz parou de responder, e enquanto se temia pelo pior, a maioria no grupo recebeu isso com naturalidade.

Preocupada, a namorada do garoto nos contou que ele teve uma overdose por conta dos remédios, foi socorrido e passava bem. O mais curioso é que isso é aparentemente normal dentro do grupo, tanto que não houve fortes repercussões em relação ao garoto com a overdose. O que de primeira vista foi algo chocante, para os membros é uma realidade.

"Hoje, habituado ao grupo e analisando de maneira fria, não acredito que o garoto tinha a verdadeira intenção de se matar, mas é evidente a dor que ele sente, e a necessidade de comunicar e partilhar esta dor. Um grito por ajuda? O conforto de ter um afago de amigos online?", concluiu Lucas Quinelato.

Cortes e mais cortes

Não é uma tarefa fácil entender a motivação desses jovens. Em uma definição básica, segundo especialistas, automutilação é uma lesão em parte do corpo sem intensão suicida, com propósitos não validados socialmente. A finalidade é a busca de alívio psicológico através de uma agressão física. Geralmente, ocorre entre jovens com depressão, complicações psicológicas ou associada ao Transtorno de Personalidade Borderline.

É importante destacar que a automutilação não é um comportamento suicida. Isso porque, pelo menos a priori, os cortes não tem como objetivo a morte, mas sim um alívio da dor psíquica. Entretanto, esse comportamento é um alerta de um sofrimento emocional muito grande, mesmo não havendo uma relação direta, até porque há uma relação muito forte entre automutilação e depressão, e esta é, por sua vez, um dos sinais que podem levar ao suicídio.

“Estamos falando de comportamentos que andam em paralelo, e que às vezes se cruzam. Não é o mesmo comportamento, mas eles andam muito próximos”, destaca a psicóloga Karen Scavacini. “É importante falar porque é um comportamento que se eu não trato vai aumentando, e pode levar a pessoa a pensar em se matar”, completa.

Nem todos os membros dos grupos on-line praticam a automutilação, mas é evidente que boa parte deles cultuam e/ou propagam esses atos. Isso porque esse pode ser considerado um dos comportamentos mais contagiosos que existe.

Podemos ver, portanto, fotos de punhos cortados com frases de lamento, tristeza e despedida, mas também vemos jovens dizendo que isso é uma das menores dores que podem sentir. São diversos os motivos, assim como também são diversos os tipos de cortes. Em horizontal, vertical, escritas, arranhões, cortes profundos, superficiais, cada um possui um limite e uma intenção. Os cortes são geralmente realizados nos punhos, mas não é estranho encontrar cortes em pernas e barrigas.

Apesar da automutilação aparecer esporadicamente nos grupos, notamos a existência de gatilhos emocionais para tais atos. Dias das mães, Dia dos namorados, feriados prolongados, datas comemorativas e sextas-feiras são geralmente os dias mais ativos, recheados de fotos de automutilações e drogas, como cigarros, bebidas alcoólicas, maconha e remédios de prescrição médica.

A seguir, exemplos de postagens e de fotos incluídas nos grupos de suicídio.

Como é estar em um grupo de suicídio?

 

Confesso que entrei nos grupos com medo, me assustei diversas vezes e demorei para me acostumar. Presenciar essas cenas não é algo “natural”, demorou mas com o passar do tempo as diversas mensagens recebidas por dia nesses grupos passaram a ser algo cotidiano em minha vida. Poderia muito bem acordar e ver um braço cortado, ou alguém que tentou ter uma overdose de remédios na noite anterior. Assim, pude perceber, mesmo minimamente, como funciona a cabeça desses jovens. Suas dores são ouvidas e o mais importante, aceitas como algo normal. Eles sofrem, e os grupos são uma válvula de escape.

Parece um culto à morte, como se a vida fosse muito difícil de ser vivida, tomada por sofrimento e angústia em ficar nesse mundo de tristeza e decepção. Muitos não se sentem amados, se acham feios, são inseguros e imaturos, buscam um conforto, um refúgio, mesmo que efêmero. Lá eles podem se relacionar, encontrar pessoas na mesma situação, pois não é só de dor e sofrimento que vivem. Na verdade cortes, sangues, remédios tarja preta e drogas lícitas e ilícitas são só uma parte.

A relação deles no dia a dia é amistosa, dão bom dia, boa tarde, boa noite, conversam sobre filmes, músicas e séries, mas quase todos os assuntos tem a morte como temática ou plano de fundo.

Saí dos grupos, pois mesmo que estivesse acostumado não é fácil ficar recebendo mensagens todos os dias, de pessoas aleatórias lamentando-se sobre a vida e compartilhando suas frustrações – muitas vezes acompanhadas de sangue. Lá todo mundo é um pouco psicólogo e um pouco suicida, se ajudam ao mesmo tempo que se sentem atraídos pela morte, um tanto quanto paradoxal.

Dentro do grupo você não é o estranho que se corta, você não é o depressivo chato, você não é a pessoa fraca que tenta se matar. Dentro do grupo você é alguém que sofre, alguém que busca razões para não se matar, encontrando pessoas na mesma situação, que podem ocasionalmente ajudar, mesmo que essa ajuda seja uma companhia online.

Lucas Quinelato