6. Para evitar o suicídio

Pode ser prevenível, mas não previsível

Por mais que seja muito difícil prever exatamente quando um suicídio ocorrerá, é totalmente possível preveni-lo, impedindo que ele ocorra. Para isso, o primeiro passo é acabar com esse tabu que existe sobre o tema.

Como citado anteriormente, falar sobre, sem preconceitos e de maneira responsável, é a melhor forma de informar as pessoas sobre tudo o que envolve a questão. O primeiro passo é mostrar a todos a gravidade da situação, que o suicídio não é coisa do outro mundo, que está muito presente em nossa sociedade. O suicídio está mais próximo de nós do que imaginamos.

Reconhecida a importância da questão, é preciso que se acabe com essa ideia de que “depressão é frescura”, que a pessoa “só quer chamar atenção”, que ela “é louca”, é “fraca”, ou que nada pode ser feito a respeito. Esse menosprezo talvez seja o principal fator que faz com que sejamos surpreendidos por um suicídio. Como já destacado, prestar atenção aos sinais é fundamental, porque depois que o suicídio é realizado não há mais o que fazer.

Além disso, é preciso que não se julgue quem passa por uma situação difícil, oferecendo apoio, tentando entender o momento da pessoa e sempre demonstrando que tem, sim, uma saída.

E quando é você que pensa em suicídio?

Já para a pessoa que está passando por momentos complicados, e chegou a cogitar a hipótese de suicídio, o mais importante é tentar manter a calma, e sempre procurar ajuda. Por mais que seja difícil enxergar uma saída, ela existe, só que sozinho fica mais complicado para encarar a situação. Por isso, é essencial que se procure o apoio de pessoas mais próximas e de confiança.

Além disso, depressão, ansiedade e outros distúrbios têm tratamento. Por isso, é muito importante que se busque ajuda profissional. Também é preciso desmistificar a questão da terapia e do tratamento psiquiátrico. É totalmente normal, quando se passa por um problema do tipo, que se procure por profissionais capacitados, que saberão a melhor maneira de lidar com a situação.

Quem não tem condições de pagar por um tratamento pode procurar os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que são instituições públicas destinadas a oferecer, de maneira totalmente gratuita, ajuda no campo psicológico.

Por fim, em um momento de desespero, pode-se também entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV). A organização presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo. Basta ligar no 141 ou acessar o site www.cvv.org.br.

O mais importante é saber que existe, sim, uma saída, e que você nunca está sozinho.

Pessoas impactadas e Posvenção do Suicídio

O suicídio também tem consequências sobre quem fica. Mesmo sendo um ato individual e solitário, é uma das formas de morte que mais causam dor e sofrimento aos familiares e amigos. É comum que quem passa pelo luto busque respostas que muitas vezes não podem ser dadas. O famoso “e se” entra em ação, juntamente com sentimento de descrença, raiva, dor e culpa.

“Tem uma diferença no luto. A gente não compara dor, mas tem alguns temas que são específicos do luto por suicídio, como a culpa, o estigma, a busca do porquê”, afirma Karen Scavacini, psicóloga e coordenadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio.

Essa dor faz com que seja comum o comportamento suicida nos enlutados, o que faz desse um grupo de risco, e que deve receber atenção especial quando se fala em prevenção. Estima-se que de cinco a 10 pessoas sejam extremamente impactadas por um suicídio. Ou seja, como ocorrem em média 32 suicídios por dia no Brasil, pode-se afirmar que temos, diariamente, de 160 a 320 pessoas impactadas diretamente.

E é aí que entra a Posvenção, termo relativamente novo no Brasil e que diz respeito a toda intervenção que é feita após o suicídio de alguém, visando ajudar os parentes e as pessoas mais próximas a passar pelo período de luto. A ideia principal é mostrar que já aconteceu com outras pessoas, que isso é mais comum do que imaginamos e, principalmente, que existe vida após um suicídio.

Assim, existem grupos de apoio, com reuniões periódicas nas quais as pessoas podem dividir suas experiências e se ajudar, além do atendimento individual, psiquiátrico para alguns que precisam mais, como os que desenvolvem Transtorno de Estresse Pós-traumático, por exemplo. Há ainda outras ações possíveis, como apoio para crianças e a chamada posvenção ativa, quando as associações vão atrás dos enlutados.

"Em termos de Brasil, o que a gente tem de posvenção hoje? Praticamente nada", destaca Scavacini.

Além disso, há o Dia Internacional do Sobrevivente do Suicídio, promovido no dia 20 de novembro.

Por fim, é importante frisar que ninguém é culpado por um suicídio. São diversos os fatores que levam à consumação do ato e, por mais que ele possa ser evitado, não há como prever exatamente quando ocorrerá. O suicídio é prevenível e não previsível.

Depoimento de quem passou por isso

“Aprendizado e divisor de águas. Acho que é isso que melhor define o impacto que o suicídio causou em minha vida. Foi um divisor de águas em relação ao que eu era e ao que quis me tornar. Aprendi a olhar com muito mais cuidado para as pessoas a minha volta, a ser menos egoísta. Aprendi a tentar ser sempre veículo de amor e de carinho para qualquer pessoa, por menos próxima que eu seja dela, a observar todas as formas de viver e como isso pode ou não impactar a vida de alguém, no que eu posso ajudar a melhorar ou trazer de lição pra mim.

Enxerguei também que a ambição e o descontento profissional são inimigos silenciosos da alegria, motivos que sei que levaram meu pai embora, claro que junto de todo um mundo e pensamentos desordenados que já deviam existir em sua cabeça. Passei algum tempo tentando entender essa cabeça, mas pouquíssimo tempo mesmo. O coração daquele ser era imenso demais e, por isso, compreensão e carinho são os sentimentos que carrego comigo em relação à decisão que ele tomou. Desde há muito tempo, graças a Deus, enxergo tudo com muita clareza e tranquilidade.

Mas, claro, tocar no assunto e relembrar esse episódio triste da minha vida é sempre doloroso. Por isso, eu espero, de coração, que esse pequeno momento de tristeza que passo ao escrever aqui possa ajudar alguém aí. Ajudar a ficar bem com a decisão que alguém amado possa ter tomado ou a mudar de ideia sobre como resolver o que acredite ser um problema sem solução em sua vida. Pois tudo tem uma solução, basta olhar em volta e dar uma oportunidade para que alguém possa ajudá-lo, assim como eu gostaria de ter ajudado o meu pai.”

Karina Meneses.